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September 2014
Galeria Quadrado Azul, Lisboa
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Abismos e escapatórias

Foi sensivelmente há quatro anos que António Bolota (Benguela, Angola, 1962) inaugurou no Museu da Cidade, em Lisboa, com a curadoria de Nuno Faria, a exposição A Última Luz do Dia. Dedicou-lhe, neste suplemento, um texto que sublinhava a experiência do espectador no espaço, na e com a arquitectura. Perto do edifício, um muro, em forma de paralelepípedo, impedia a passagem, irrompendo do museu. Era um obstáculo, mas um obstáculo que ligava o exterior ao interior, configurando assim, também, a ideia de uma ponte ou, antes, de uma entrada, não tantodo espectador, mas da própria arquitectura ou do quotidiano (na exposição).

Na vista que antecedeu a escrita desse texto, a luz (natural) não foi a última do dia, pelo que a ausência de iluminação no museu passou quase despercebida: a par de zonas de sombras, existiam também (muitas) zonas de luz. Esse tempo mostrou, fez as suas esculturas. Na nova exposição de António Bolota, na Galeria Quadrado Azul, em Lisboa, as obras também se construíram com a luz, mas a natureza interveio menos directamente na contingência, na imprevisibilidade, que caracteriza a experiência da obra de arte. A relação que o artista propõe está determinada pela iluminação,/escuridão com que "desenhou" as suas esculturas, bem como pela arquitectura. Na sala principal, dois volumes dispostos paralelamente reconfiguram a galeria ao ponto de esta "desaparecer". Criam, no seu lugar, passagens, abismos, escapatórias. Espaços sob efeitos da luz e da escuridão, das linhas da geometria. Ilusões, vertigens. Ao fundo, vislumbra-se uma saída, mas é falsa: as esculturas tocam-se nas suas extremidades, impedindo o movimento, a passagem. Um dos volumes declina no que parece ser uma rampa, mas o material, a escala e um degrau (uma barreira) demovem o espectador de qualquer gesto mais imprevidente ou ousado. Sublinhe-se que as "paredes", os muros de António Bolota, não são parques ou recreios, nem cenários de um film noir (ainda que esta analogia não seja totalmente despicienda), antes densidades, aparições com o que o visitante se confronta. Desse confronto, a memória de espaços (subterrâneos, túneis, corredores), e de trajectos nesses espaços, será um dos epílogos possíveis, pois o trabalho de António Bolota nasce da cidade, da construção na cidade. Não é, no entanto, o único. Há nos volumes, nas superfícies das paredes, uma dimensão háptica: a textura do betão armado (rebocado com argamassa pigmentada de negro, afagada manualmente com talocha lisa).apela ao tacto como se este permitisse revelar o mistério. Aliás, a curiosidade é um sentimento que a exposição desperta: apetece espreitar, subir os muros, ver o que escondem. Percorrer com as mãos a pele das paredes. Já na outra sala, a impossibilidade desse gesto afirma-se numa escultura, um cubo negro suspenso entro o tecto e a parede. A tensão com a arquitectura da galeria, entre a gravidade e o peso, e a possibilidade de uma queda inquietam, perturbam. Com a sua estranheza muda, a escultura surge como um intruso à qual o corpo não tem acesso. O espectador encontra-se só diante de abismos, dos fechamentos, das aberturas ou das escapatórias que exta exposição cria. Como diante das situações, dos espaços e das possibilidades que constituem a realidade.

in Jornal "Ípsilon", Sexta-feira 7 de Novembro de 2014

Se toda a exposição se pode e deve, ver com o corpo todo e todos os sentidos, então uma exposição de António Bolota (n.1962) é superlativa desse modo de ver, e, ainda mais que outras, esta exposição da Quadrado Azul. Digamos que ela nos impõe uma coreografia corporal, primeiro, num espaço lateral, pelo susto ou pela surpresa, ou pela a ameaça de um corpo sólido e invasor saindo da parede, batendo-nos mesmo ainda antes de lhe tocarmos, se é que ousamos tocar-lhe; depois, na sala principal, agora com a entrada parcialmente disfarçada por um muro construído para ocultar o que lá se passa na presença convergente de dois prismas (ou seus fragmentos) que, simultaneamente, nos acolhem e nos limitam o acesso, obrigando-nos praticamente a roçar as paredes, salvo no vertiginoso e agudo espaço convergente que entre eles se desenha. Há nítido elevado contraste entre estes dois espaços: o primeiro confronta-nos e pode assustar-nos, enquanto o segundo como que nos devora e nos integra no seu próprio ser. Não posso deixar de me lembrar de uma expressão dos anos sessenta, entretanto caída em desuso, "estruturas primarias", da razão do seu esquecimento: é que estas estruturas podem ser primais como o grito, e desencadear, nos corpos que as experimentam e as vêm, uma complexa serie de emoções, de esboços emocionais, antes de qualquer pensamento organizado; cumprindo assim , cabalmente, uma função primordial da obra de arte pelo encontro fusional entre a aparente simplicidade das formas e a interrogação ainda sem nome que as recebe.

In Expresso, ATUAL n2192, 1 de Novembro de 2014, p.32.

António Bolota’s latest solo exhibition treats formal issues as a science and articulates how sculpture can transform the way in which space is perceived. Here, the artist fills two rooms with three massive blocks of brick or brick and iron that resemble polyhedrons and are covered with concrete mixed with black pigment, giving them the appearance and texture of coarse sandpaper (all works Untitled and from 2014). Situated as hulking, dark forms in a sparse gallery, two of these pieces resemble hunks of charcoal against the surrounding paper-white walls. One sculpture could potentially be climbed by way of a ramp-like platform, enabling a viewer to touch the gallery’s ceiling. In an adjacent room, a nearly claustrophobic engagement is demanded by another towering work, which appears to plunge in the spectator’s direction as if on the verge of collapsing. Bolota’s work has always focused on having sculpture test and challenge the limits of perception, and these pieces go a step further by using the whole exhibition space as a material support. Displaying a keen, site-specific focus on the presence of a body in front of monumental form and the attending sensations it provokes, physical phenomena—including gravity, weight, attraction, balance, tension, and rigor—contribute to Bolota’s search for a vertiginous and almost dramatic experience of sculpture.

in Artforum