CONTENTORES

October 2015
Fundação EDP, Lisboa
Approx. 2.90 x 2.40 x 12 m (buried) Steel shipping container, Estremoz stone slabs and lawn. Curator:
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Contentores e conteúdos

Nos último cinco anos, a plataforma criativa P28 realizou um conjunto de exposições que tinha como referência definidora a utilização de um contentor de cargas que criava um lugar de interceção entre o espaço publico e a proximidade de uma instituição. A iniciativa vem reunindo um numero significativo de artistas que exploram essas circunstancia de muito diferentes maneiras e com resultados naturalmente irregulares sem que o significado simbólico (politico e social) de utilização de um contentor seja necessariamente evidenciado. No inicio do seu sexta ano de existência, o projeto aporta ao Museu de Eletricidade utilizando já não mas 3 contentores a que correspondem intervenções site-specific de outros tanto artísticos. Apesar da multiplicidade agora proposta, este é um momento de particular coerência do projeto na medida em que as três intervenções - a cargo de António Bolota, João Seguro e Susana Gaudêncio- tiram partido da dicotomia dentro-fora adequada à vocação hibrida do projeto (algo que está na rua, mas recolhido) para explorar questões que podemos entender como complementares que são apropriadas com lucida equidade simbólica. Susana Gaudêncio apresenta uma proposta que transforma o espaço do contentor num lugar cinemático. O visitante é interpolado por duas projeções que polarizam o interior com imagens que remetem para o trabalho de construção de edifícios modernistas e pós-modernistas, criando-se relações entre os lugares, as estruturas e os intervenientes com as imagens a serem intensificadas como o apontamentos de animação colorida que acentuam alternadamente o movimento dos trabalhadores e as ossaturas arquitetónicas. O ambiente é estridente e contrasta com o silencio exterior como se ocultasse em si todo um momento um mundo subterrâneo como se de uma arqueologia social se tratasse. Já João Seguro abarrotou de tal maneira o seu espaço que o visitante não pode entrar nele, mas por entre estruturas de madeira e caixas de papelão, o artista gera uma caleidoscópica estratificação de planos e camadas criando uma estruturas que se oferece à observação furtiva e que subtilmente vai revelando os seus enigmas por entre outros não decifráveis. Finalmente, é ainda de ver ou não ver o que se trata da intervenção de Antonio Bolota, mas nunca de aceder ao interior do contentor que surge ainda mais vedado, já que está enterrado no próprio solo e emparedado com placas de mármore numa espécie de evocação tumular. Nas mãos de Bolota o contentor transforma-se num sarcófago, uma nave embutida no tempo, inviolável mais imponente na sua majestade térrea. Usando o contentor para metaforizar as relações do trabalho com as estruturas de produção (Gaudêncio); transformando numa inviolável estratificada paisagem (Seguro) ou usando numa velada invocação da morte, os três participantes dão um sentido à utilização daquela arquitetura industrial fazendo dela o lugar de entrada, por vezes negado, de um mundo paralelo, sem que isso, porém, se transforme em evasão.

in Jornal Expresso, Revista E, 25 de Abril de 2015, p.86.