PRÉMIO NOVOS ARTISTAS EDP

January 2009
Fundação EDP, Lisboa
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Weight

When António Bolota presented his first project for the EDP Awards, the proposal was rejected outright by the engineering team at Central Tejo. This was understandable: the enormous beam that spanned the space appeared to be a marked and imminent threat to the building. It wasn’t. His technical skill as an engineer and huge amount of construction experience should have been guarantee enough, but the need to present the jury with a plan B resulted in the proposal that would ensure a permanent place for his sculpture in the space. It is, in fact, a very simple idea: a prism, large enough to cover the entire height of Central Tejo, is suspended from the ceiling with the lower vertex coming down to just 2mm above the ground.It is an enormous and hugely elegant sculpture, a wedge pointing to the floor that (and herein lies its irony), for safety reasons, could not be perforated. Don’t forget that the safety of the floor had been the reason preventing Bolota’s initial project from being brought to fruition. Nothing better, then, than keeping the threat in a state of hanging equilibrium.He suspended the gigantic prism 2mm from the floor, just enough room to pass a sheet of paper, a credit card. The sculpture thus did not touch the building: it occupied its entire height, but was suspended without physically touching the iron structure of the ceiling, or the floor. It was a suspended weight, a latent threat, an interruption, a punctuation mark, an interval. And that interruption between floor and ceiling, that fluctuation in the periphery of the space, gave the idea that its entire reason for being rested (how treacherous words are...) on the interruption of that weight that, inevitably and like any mass in space, is the guarantee of its inexorable existence.

Gravidade

A escultura de António Bolota é poderosa e delicada. Com uma escala pouco comum nos artistas portugueses, António Bolota partedo espaço arquitectónico para definir módulos que atravessam os edifícios, desenham desvios, redefinem equilíbrios. A obra que fezpara a EDP é uma enorme cunha suspensa a 1mm do chão. . A tensão que coloca sobre o seu ponto de incisão é enorme, porque a suaescala monumental descarrega sobre o vértice da pirâmide uma energia que é elegantemente suspensa. Paradoxalmente, AntónioBolota escolheu um local rigorosamente discreto para a instalação dasua obra. Contrariamente ao esperado (ao que seria comum parauma obra tão poderosa e assertiva), a sua localização no espaço desvia-se para a periferia,necessitando de uma particular atenção doespectador para ser descoberta.Essa é, aliás, uma prática comum no seu trabalho: definindo projectos que possuem umaambição enorme, exigem recursos consideráveis, suscitamenormes dificuldades de instalação, António Bolota decide sempre porcondições discretas de apresentação ou situações efémeras. Esta duplicidade marca o seu trabalho de forma indelével e aponta parauma forma de conceber a prática artística muito mais próxima do processo do que seria esperável por parte de um artista que tem noscaminhos do dito minimal uma referência permanente. Assim, existe no seu trabalho uma presença da dificuldade projectual, umgigantismo na mobilização de recursos que aponta para a tónica performativa. No entanto, ao contrário do que acontece em muitos dosartistas que produzem um centramento no processo, existe no trabalho deAntónio Bolota um cuidado no acabamento final do objectoque é sua condição inerente, mais do que somente sua condição formal. As suas esculturas existem segundo uma condição depossibilidade que reside na precisão do seu acabamento final, não só em termos visuais, mas na sua temperatura, na resposta ao toque,na densidade que o som lhes comprova ou nega. Esta preocupação com a materialidade da relação física que o espectador experienciano contacto com a obra liga-se ainda a uma outra componente – a formulação paradoxal das suas esculturas, quase sempre no limiarde suscitarem uma interrogação sobre a sua viabilidade física, sobre o processo do seu equilíbrio, do seu peso, ou da suaresistência. Assim, a escultura de António Bolota vive sob a égide da performatividade e do paradoxo, definindopara si própria umparâmetro de alta performatividade. Quer isto dizer que estabelece como proposta a resposta a um repto que exige umaparticularcompetência construtiva, o desenvolvimento de um saber específico em relação às condições do lugar, mas também emrelação à estratégia mecânica (em sentido aristotélico) para a sua edificação. Para tal, o trabalho de Bolota recorre a uma estruturade projecto que se situa na confluência entre metodologias oriundas da engenharia, da construção como método e de uma sensibilidadearquitectónica. Estas linhas de desenvolvimento do trabalho sãomuito próximas da relação que os construtivistas russos propunhamentretektonika, faktura e konstruksia. Para o grupo de artistas de que fazia parte Moizei Ginzburg a arte define-se a partirda articulação entre estes eixos: o primeiro conceito diz respeito ao elo orgânico entre valores políticos etécnicasindustriais. Faktura diz respeito aos valores específicos dos materiais usados. Konstruksia é a formulação levada ao extremo, isto é, aperformatividade do projecto. Se, para a aplicação histórica destes princípiosna Rússia o caminho da arte se orienta parauma construção social, na versão própria que lhe é conferida por António Bolota nasce uma simbiose emrelação ao minimalismonorte-americano, com a sua noção de especificidade do objecto, tal como foi definida por Donald Judd em 1965. Por outraspalavras, aimanência do objecto é o seu destino e o primado ideológico é substituído por uma razão sensível e subjectiva. Assim, as obras deAntónio Bolota lidam com as determinantes do espaço arquitectónico, com a subtileza construtiva no limite da possibilidadede existência da própria obra, mas são, acima de tudo, intervenções que reequacionam a escultura e a sua tradição de peso e massapara um universo no qual a performatividade da relação com o espectador é a sua principal função.