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January 2010
Galeria Quadrado Azul, Porto
3.00 x 8.97 x 0.58 m Iron girder, limestone and lime mortar Curator: Norlinda and José Lima Collection
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A essência de um muro


Erguer um muro, torná-lo arte: a nova intervenção de António Bolota (Benguela, Angola, 1962) é um momento raro no contexto galerístico português. A peça descreve-se em poucas palavras: uma viga de aço sustém uma parede de pedras que corta o espaço da galeria, dificultando assim o acesso a quem quiser continuar para além do obstáculo; a única forma de o fazer é por baixo do trabalho, na exígua abertura entre o chão e a estrutura.

O primeiro contacto visual com a obra leva a pensar que o muro está de pernas para o ar, num desafio à sua própria essência: já não se trata nem de separar, nem de proteger, mas antes de escapar à sua condição utilitária. Com esse objectivo, a parede de pedras desafia a arquitectura envolvente - o "cubo branco" da galeria -, agarrando-se a ela até ao tecto, deixando apenas um rodapé livre, passível de ser atravessado.

Este é um dos paradoxos deste muro, que, na galeria, adquire também a condição de escultura. Há, portanto, vários territórios que se cruzam num único objecto: aquele que provém de uma tradição arquitectónica popular - a alvenaria de pedra, por exemplo -, o herdeiro da siderurgia, e ainda aquele com origem na história da arte do século XX, nomeadamente o relacionado com as vanguardas históricas, de Tatlin a Jannis Kounellis - recorde-se a porta murada com pedras criada por este artista em 1969.

Esta curiosa colisão de mundos - pode também apontar-se a evocação, através deste muro, de vivências partilhadas entre o campo e a cidade - é potenciada pela forma como a obra se afirma no espaço da galeria: ali, aquela suspensão vai-se revelando aos poucos. A aproximação do espectador à escultura acaba por tornar visível a extensão do trabalho, oculta na perspectiva inicial - a parte da parede de pedra num primeiro momento escondida do olhar é também uma zona de sombra, que contrasta com aquela imediatamente percebida por quem entra na galeria.

O muro tem também as suas falhas, espaços deixados livres entre as pedras, imperfeições que dão uma outra vibração à própria obra - e há ainda o musgo, pequenas raízes e paus que nos querem dizer algo acerca da proveniência material deste trabalho. São detalhes que projectam o visitante para memórias de outros lugares, distantes deste circunscrito pela arte. O trabalho de António Bolota sublinha não só a sua pré-existência, mas também o gesto de trasladação que o artista realizou - antecipando que aquele conjunto de pedras continha em si a potência de uma escultura.

A quem atravessa a peça é dada a ver uma outra "paisagem": do outro o lado, o muro é unido através de uma espécie de argamassa em barro e cal - ali, as zonas de sombra e luz invertem-se. Se a primeira visão é a de um plano homogéneo, agora observa-se uma inesperada rugosidade, como se o objecto fosse constituído por duas geografias. Em 1964, num texto lido na inauguração de uma exposição de Bernhard Heiliger, em St. Gallen, Suíça, o filósofo alemão Martin Heidegger afirmou: "Mais filosófica do que a ciência e mais rigorosa, quer dizer, mais próxima da essência da própria coisa - é a arte."

No caso de António Bolota, essa proximidade à essência das coisas e do próprio homem é uma evidência. O muro agora visível não separa, não protege. É ele próprio uma manifestação do belo: o que, segundo Kant, "agrada universalmente, sem relação com qualquer conceito." De ambos os lados da peça em pedra e aço, ao observar-se a passagem dos corpos pelo espaço entre a viga e o chão, constata-se a existência de um espaço de liberdade desenhado pela escultura: nesse interstício, cada espectador pode experimentar a sua própria capacidade de atravessar obstáculos e, quem sabe, tocar algo de novo, um outro de si.

in Jornal Público, Ípsilon, Sexta-feira 24 de Setembro de 2010, p.41