SEM ESCALA

January 2016
Galeria Vera Cortês, Lisboa
Variable dimensions. Construction materials and construction fragments, different types of wood and stone, steel, concrete, glass, acrylic glass and foam.
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A imaginação escultórica

Longe vão os tempos em que a escultura estava subordinada à pintura e vivia num lugar próximo das artes menores e artesanais sujeita a uma lei externa a que se devia submeter. Conquistou um lugar próprio não só na sua relação com as outras artes enquanto linguagem artística autónoma que não se limita a ser monumento, arte funerária, ornamento arquitetónico ou símbolo do poder terreno ou divino. Não que a arte clássica não tenha exemplos maiores de escultura, mas é recente a compreensão que a escultura possui um imaginário próprio, livre constrangimentos que não sejam os do fazer da escultura e as investigações do próprio escultor. As transformações fizeram-se sentir a partir do modernismo e, fundamentalmente a partir de gestos concretos realizados por escultores. Ou seja, podia-se localizar em obras especificas, de autores determinados, a libertação da escultura das suas relações de subordinação à arquitetura, ao urbanismo, à pintura, ao poder, a religião.

Estas observações genéricas são motivadas pela nova exposição de António Bolota (n. Benguela, 1962) e são-no porque um dos elementos mais notáveis destes novos trabalhos é a maneira como convocam a imaginação especifica da escultura e os seus sonhos formais, em conjunto com o seu combate à gravidade e aos seus jogos de equilíbrios de massas que se opõem, conjugam e harmonizam.

O uso da imaginação não quer dizer que estes conjuntos devam ser encarados como maquetas de esculturas-por-vir, obras imaginadas e desejadas, que um dia, ao de conquistar a sua escala final na sala de um museu ou no meio da cidade, mas sim porque estas peças remetem par a a linguagem fundamental que a escultura utiliza nos seus processos de idealização, formalização e materialização.

Trata-se de uma exposição surpreendente. Primeiro porque corresponde a uma alteração do modo como este artista tem vindo a trabalhar: o habitual grande e impressionante, herdeiro e contaminado por um saber da engenharia e dos seus segredos acerca dos equilíbrios precários da matéria, deu lugar a gestos contidos, mas igualmente intensos em termos da sua precisão e surpresa. Depois porque a utilização deste artista, de recursos sofisticados foi substituída por um modo de pensar muito icónico e sintético, ou seja, são simples operações como, por exemplo, uma esfera de mármore, uma régua de aço e uma esponja, que, justaposta materializam os fascinantes equilíbrios escultóricos, ou, num outro exemplo, uma peça de grafite com cerca de trinta centímetros que fica suspensa pela ação de uma pedra invertendo a lei física da gravidade e mostrando como o estar suspenso é uma possibilidade real da matéria. Jogos que não se inscrevem numa espécie de ilusão e de truques enganadores, mas que remetem para as operações originárias da escultura.

Se a linguagem formal e a sua conjugação é um aspeto importante desta exposição, outro é a maneira como as mesas/ plinto onde assentam os conjuntos escultóricos lembram um laboratório alquímico com os seus vidros, poções e elementos, sujeitos a múltiplas metamorfoses e transformações. Estas pequenas esculturas - que o artista diz serem Sem Escala - através das relações que articulam a precisão do gesto construtivo com o acaso de conjugação de diferentes matérias, como aço, agua, esponja, madeira, mármore, terra, vidro, inscrevem estas obras num espaço que não lhes dizia respeito a nenhuma geografia concreta pois estas esculturas não dizem nenhuma respeito a nenhum lugar mas queriam a sua própria espacialidade. Este é outro dos aspetos notáveis desta apresentação: é que a relação privilegiada com os sítios de exposição em que o escultor intervinha, acentuando as suas características espaciais e respondendo aos lugares com gestos muito impressivo e monumentais, agora estas esculturas exigem uma espacialidade que não lhes é preexistente, mas elas mesmo dão origem ao seu espaço de existência.

Estas questões sobre a origem do espaço formado pela escultura - que não é o espaço da arquitetura, nem o da galeria de exposição, nem o do mundo - ligam-se a ideia inicial da imaginação escultórica. Ou seja, trata-se nesta exposição de surpreender os diferentes modos como a escultura imagina o espaço através de relações entre matérias, formas e intensidades, que dão origem a uma espacialidade própria e antes inexistente. Sendo que para os artistas, e seguindo a poderosa sugestão de Ana Hatherly, imaginar é uma forma de ação: imaginar o espaço é agir no espaço.

In Jornal Público, Ípsilon, 7 de Outubro de 2016, p.26.