UMA CERTA FALTA DE COERÊNCIA

September 2010
Porto
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Desenhar a ruína

No exterior do Uma Certa Falta de Coerência, na Rua dos Caldeireiros, através da porta, consegue ver-se uma linha de colunas negras. Uma intervenção minimal dir-se-ia logo de imediato, tal o rigor da intervenção. Contudo, esta conclusão só é possível para quem tenha visitado anteriormente o espaço, porque, de facto, aqueles pilares de madeira, entalados entre o chão e o tecto, podiam pertencer àquele lugar desde sempre; terem nascido ali, para manterem de pé uma casa em avançado estado de degradação. Sim, a intervenção de António Bolota (Benguela, Angola, 1962) transforma as salas da exposição, sublinhando, contudo, uma situação preexistente,vinculada à própria essência do lugar e, por extensão, à zona histórica da cidade: o trabalho do artista faz emergir a condição de ruína ali latente, fazendo lembrar desastres passados e anunciando uma catástrofe por vir, entendendo-se esta também na sua dimensão política.

Entre-se então no espaço: uma métrica regular – a tradicional grelha modernista – é-nos dada pela localização de uma série de colunas em madeira queimada. A superfície das barras possui uma textura que anula qualquer leitura minimalista: vistas de perto, elas revelam rugosidades, escamas, brilhos prateados e cheiram ao fogo que, em parte, as consumiu. O trabalho de António Bolota aproxima-se do quotidiano, afastando-se dos pressupostos da “arte pela arte” e aproximando-se de questões relacionadas com o desenho. A intervenção no Uma Certa Falta de Coerência faz um desenho e desenha, porque cada barra, agora transformada em carvão, pode inscrever no corpo de cada visitante um traço, uma mancha, uma inesperada marca na superfície das mãos. Esta é outra das características desta obra: ela “suja” quem dela se aproxima, uma situação por vezes difícil de evitar.

O percurso através das salas revela ainda outras situações trabalhadas pelo artista, como um ambiente homogéneo, denso, criado com uma subtil intervenção na luminosidade do espaço. Há ainda o acaso de a métrica escolhida ter feito com que um dos pilares bloqueie uma das portas interiores do Uma Certa Falta de Coerência. Todos estes acontecimentos revelam uma série de paradoxos: por um lado, o facto das colunas, queimadas, negras, darem um sentido de ordem a um lugar em risco eminente de desabar; por outro, a ilusão de serem estas barras verticais que sustêm o tecto; finalmente, a sensação de ser ter passado ali algo – um incêndio, por exemplo –, que, na realidade, nunca chegou acontecer.

Esta é uma instalação “in situ.” E deve ser experimentada, percorrida, de modo a que, quando se regressar novamente ao exterior, se perceba o alcance desta obra: basta olhar para as casas vizinhas ou para quem passa na rua. Aqui não há redenção possível, apenas “ corpos-fantasmas” – imagens de um tecido social em colapso – e habitações que encenam a sua própria despedida.

António Bolota consegue uma vez mais traduzir visualmente as suas preocupações éticas, numa intervenção consistente. Se Alberto Carneiro propõe uma reflexão acerca do modo como a árvore se constitui enquanto segunda natureza no território da arte, activando essa meditação através, por exemplo, da instalação “Uma Floresta para os teus sonhos” (1970), obra que convida o espectador a reencontrar-se com a sua essência, Bolota, pelo seu lado, procura antes colocar em relevo a forma como esse sonho está cada vez mais distante, sendo, por isso, um trabalho muito mais materialista do que o de Carneiro. Contudo, a dúvida persiste: existirá uma dimensão espiritual na sua obra? E embora se possa afirmar ser o aspecto formal que sobressai nesta peça – a relação com a arquitectura envolvente é outro dos dados relevantes para o processo de trabalho do artista –, este, não nos podemos esquecer, reflecte o contexto urbano e social envolvente.

It cuts the space like a knife. It’s not exactly an overtly violent act, but there is the just that slight bit of violence that all the necessary and profound things possess. We could begin by stating that the pieces by António Bolota work in an incisive fashion, even though they are often even discrete when seen on site. Moreover, all of his pieces are built in response to one specific site. But we would run the risk of giving the wrong impression.  For, when the carefully chosen materials turn into a piece, at that moment, the distinction between the space and the piece itself ceases to exist. The object and the spot are all the same place. There is absolutely no distinction between what is inside or outside of the object. Even if the sculpture, or the installation or the video or the action lasts just one minute, during that minute, the work is the location.
For the exhibition at A Certain Lack of Coherence, António Bolota places a sort of grid a series of pillars that appear to support the ceiling. These pillars, massive wooden beams (clearly a cross section of a tree) have been burn. They appear to be ruins, pieces of charcoal, or the subterranean underbelly of a fallen city. This placement, which is far from innocent, reminds us of the foundation of a city, a city which, irrespective of its power above the ground, has rotten foundations. It is impossible to escape the analogy of the city where the piece is displayed, the foundations in ruins behind the granite facades. As is Venice, other cities are also sinking.
With its underground rhythm, as if it were a cryptoporticus, the piece unfolds within the irregular floor plan of A Certain Lack of Coherence. It’s as if a landscape were covered with grids and pillars. The columns link the floor with the ceiling which denies them space enough to be seen as either objects or pieces of art. They now make up part of the building itself. Even though they lack any functional role in supporting the building, these pillars, in the redundancy of their location in the street, support a ceiling that is heaving, a non-existent weight that can be felt as atmospheric pressure or as the pressure of the profound, squeezing against your chest.
Sculptures and buildings coexist within the same tension, for an indeterminate period of time, in the immanence of ruins.