LAPSO

January 2008
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
TEXT BY

António Bolota’s 2008 artistic residency at ZDB was rather unusual. In truth, it was a night-time residency, which he used chiefly as a time to read, averse as he always was to having an open or exposed work space. He placed sheets of paper on the wall and on the floor, as though a measurement of the days, while he read Maurice Blanchot. In the meantime, he continued his day job as a civil engineer, which at that time often led him along the road to Sintra and Colares. At night, he would return to the studio in ZDB.It was this daily journey and the great boulders that his eyes happened upon in the landscape that helped him decide on the final project of his resi-dency. He took one of these enormous rocks – which weighed several hundred kilos – and transported it to Lisbon, more precisely to the second floor of the Baronesa de Almeida Palace (the ZDB building), rep-licating his daily journey with the stone, like someone walking a pet, or showing a visitor round the city. Not without some effort, of course. To climb the stairs and transport the stone, it was necessary to reinforce the 18th-century building, to support the floor of his studio and mobilise a whole series of resources. The stone was on display and spent a night at Rua da Barroca.The following day, it returned to the Sintra Hills, making the journey once more to be deposited back in its place. The stay in the city and the delicacy – a very important aspect – with which it was handled left no traces, neither on the building nor on the rock itself. Nor, indeed, could there be, for the memory of this journey exists only to be told.

Uma pedra e um homem: não há, empiricamente falando, contrários mais distantes e mais próximos; mais vertiginosamente próximos.Eis o intervalo abissal que reside no homem sem que este o possa habitar. Intervalo da contradição íntima, à beira, sempre, da petrificação.

Para o mostrar, esse intervalo, um homem aproxima-se de uma pedra que o ultrapassa em todos os sentidos. Pedra informe, inapreensível, inamovível, insustentável pelo corpo de um só homem. Ainda assim, parece que o seu tamanho e (vagamente) a sua forma mantêm uma relação com o corpo de um só homem sem que este pretenda conhecê-la — seja de que maneira for: analisá-la e classificá-la; medi-la ou pesá-la. Apenas procura acompanhá-la, alguns passos atrás, durante o máximo de tempo possível.

A pedra abre, abre lentamente o caminho do homem que é feito de tropeções (alavancas, calços, mãos antigas, calhas, uma carga de trabalhos…). O homem dispõe-se a esperar, alguns passos atrás, o tempo que for preciso para acompanhar a pedra, o mesmo tempo em que se esquecerá dela.

Faz isto toda a vida — espera, esquece; por vezes, num lapso de tempo que nunca conseguirá medir, sente que foi conduzido pela pedra ao lugar onde ele se encontrava como se tivesse de procurar o caminho para chegar onde já está (são palavras de Blanchot, no livro justamente intitulado L’attente l’oubli). Ou como se, nesse mesmo lapso, fosse pedra imóvel durante a noite. Então, o homem não sobe nem desce — plana somente — e dessa planura não haverá imagem. O lapso é inimaginável, e o caminho está livre de obstáculos.

O homem dirá que a sua vida é um «lapso» («acção de tropeçar», de labi — «deslizar, cair» — oriundo talvez de labor: de «trabalho» — ou será de «carga sob a qual se vacila»?). Lapsus é aquilo que corre vagarosamente à sua frente, sem se objectivar.

A vida, um lapso — de tempo, de memória, durante a espera. A pedra, antes e depois deste homem, permanece imaculada.