FALÉSIA

June 2016
Appleton Square, Lisbon
TEXT BY

Wall

For Appleton Square, in Lisbon, Bolota devised an intervention that, in its initial formulation, ended up not taking place. The gallery space was divided in two and, opposite the entrance, Bolota built a concrete wall that isolated the final third of the space and, as a result, the wall at the back of the gallery. The new wall, authentic (and this aspect is very important in the project) in terms of the massiveness of the concrete and perfect in the stucco finishing, had two grooves at either end, two long cuts, precise and narrow. These cuts would form – and here begins the deviation from the initial project – the base for the next operation: the wall was destined to fall backwards, helplessly and brutally, crashing against the wall of the building and staying that way, like a broken and unsteady gable. The name of the intervention, because of this implicit collapse, was Falésia (Cliff).The owners of the building, however, did not accept the project, fearing the effects of the violent impact on the building’s structure. And two days before the opening, António Bolota left Appleton Square for the night with no project and no exhibition. It wasn’t the first time that a project of his had been rejected because of engineering issues, where weights and masses, impacts and forces, which the artist frequently took to extremes, were the subject of controversy as to their feasibility, as had happened with the 2009 EDP Award, for which he had had to opt for a second solution.In this case, however, the wall (and therefore the project) was built, with just an opening through which to access the rear of the space through the concrete wall. The performance of its collapse, however, could not take place.The following day, Bolota reconfigured the project: the wall would not fall, but access to the space behind it would be closed off, as would the entrance to the exhibition room on the lower floor of the gallery. Two doors made of wood from formwork structures, crude and assertive, would prevent access.The cuts, originally intended to aid the effective collapse of the wall, were now gaps through which the space behind could be seen, or a sliver of that space, specially lit for that purpose. The impossibility of the piece became its subject. And the cliff? It remained, subtle, in the light wind our eyes could detect, a slight breeze channelled through the crack through which we tried to see what was not accessible to us. And perhaps that is where we could imagine a collapse.

Antes da hora marcada...

Entrei no espaço da Appleton Square sozinha, dei alguns passos e fui parada por uma parede branca erguida à minha frente, a meio do cubo-branco. Tive vontade de sorrir. Não que a obra de António Bolota tenha alguma coisa de hilariante. Pelo contrário. A vontade de sorrir surgiu de uma experiência desconcertante; senti-me como que apanhada ou ultrapassada pelo artista.

Para se perceber o porquê desta sensação talvez tenha de explicar que houve uma reviravolta no decorrer do projecto, já durante o período de construção da peça, que fez com que o artista tivesse transformado a obra.

Embora aquela reviravolta não me fosse desconhecida, o facto é que o confronto com aquela parede massiva, branca, elevada em altura, de recorte perfeito, me pôs os pés à procura de chão firme. É isso que geralmente acontece à beira de um precipício ou junto de uma falésia, mas aqui, o confronto do indivíduo com a altura da parede, dá-se de baixo para cima, fazendo-nos levantar a cabeça, ao contrário dos precipícios em que olhamos para baixo. A sensação massiva oferecida pela construção e a nossa pequenez perante a mesma são reforçadas por um elemento intrigante (encastrado no muro),o qual, sendo do nosso tamanho, fornece um parâmetro de medição face à extensão da parede. Trata-se de um tapume de barrotes e tábuas de madeira, usados na própria construção da peça, a qual exigiu algumas toneladas de betão e armadura de ferro. O elemento bloqueia o buraco que permitiu a entrada dos trabalhadores nas “entranhas” da construção durante o seu erguer. O artista permite que observemos estas “entranhas” apenas por duas frestas laterais, da largura de um dedo, cada uma em extremos opostos da parede. Lá dentro, na penumbra: a brutalidade da construção, a crueza das matérias, a irregularidade do reboco de cimento e uma lâmina aguçada, em aço, que atravessa de ponta a ponta a base desta caixa, pronta a ferir o que nela caia. Mas o quê?

Na verdade, de dimensões avantajadas, a obra de António Bolota conserva sempre esta relação com o corpo: com o seu corpo, com o dos trabalhadores e com o nosso enquanto espectadores. Contudo, pese embora esta relação corporal sempre implícita nas suas construções, na maior parte das obras de António Bolota somos colocados como que à distância, não só porque as obras nos chamamsem nos deixar entrar (através da sugestão de portas, rasgos, buracos, rampas),como nos incitam a observar o interior sem tudo nos dar a ver (através de frestas, de pontos de acesso visual aos núcleos ou da “carne” das construções à vista). Mas, se estes factores são importantes na experiência das obras de António Bolota, haverá outro aspecto determinante que nos mete como que em sentido, em respeito: a dimensão das peças, a quantidade de massa que as construções envolvem e que, na maior parte das vezes, excede a nossa capacidade braçal.

Assim, a obra deste artista envolve uma espécie de paradoxo, que reside na concretização do que parece impossível, fazendo isso parte da sua linguagem interna.

A sensação desconcertante provém, portanto, de todos estes aspectos mas, sobretudo, porque a obra que encontrei já não é a que estava inicialmente previstae que o artista começou a construir na Appleton Square, mas sim uma outra, maissubtil, poderosa e inteligente que a primeira, a qual previa o derrube da parede.

Porque é que esta é mais forte que a obra inicialmente prevista?

Justamente porque é mais subtil. Porque deixa o espectador em frente de uma experiência inacabada, em suspensão.

Porque a obra, no seu desenho perfeito e nas suas entranhas à vista, como que coloca um problema à experiência, uma interrogação.

Porque deixa espaço para reconstruir mentalmente o processo com que o artista sede bateu, transferindo para nós, através da sua pele estucada e do seu interior rugoso, um conjunto de emoções extremas, belas, violentas, sublimes. Desse modo, tornamo-nos parte da peça.

Porque assume e integra todas as transformações ocorridas sem as escamotear.

A obra desconcerta porque, com o seu muro, levanta uma estranheza, uma estranheza que não se revela, que não se torna explícita, que por princípio é inerente à obrade arte.

Porque dá conta ainda que um processo artístico é feito de negociações, recuos e avanços, momentos irrepetíveis e decisões intuitivas – o que lhe confere um carácter absolutamente político.

Talvez isto responda à questão que deixei no final do texto Um poema ao espaço branco*, escrito para a primeira versão da peça: «O que significa fazer escultura, hoje?».

Talvez esta peça de António Bolota – não a outra, mas sim esta –, inteiramente concebida, feita e reelaborada neste cubo-branco, possa fornecer uma primeira resposta: fazer escultura hoje significa afirmar um posicionamento sobre o valor e o lugar do corpo, sobre o saber fazer material e conceptual, sobre as decisões envolvidas na obra de arte, das quais fazem parte integrante uma reelaboração permanente dos projectos e dos processos de construção artística – algo que aqui aconteceu. Como deixa entender Richard Serra a propósito de uma das suas esculturas removidas do espaço público, o carácter político da escultura, sobretudo hoje, provém de um combate inerente à densidade, ao peso e ao tempo que esta disciplina exige; reflecte o conflito com uma sociedade numérica e informatizada, onde o saber fazer, a materialidade, o valor do corpo se levantam contra uma fugacidade generalizada.

Desço as escadas para o piso inferior da Appleton Square e sinto-me ultrapassada mais uma vez. Sou barrada novamente, outra vez por uma cofragem de madeira e barrotes (com a mesma linguagem e elementos do tapume superior) que me impedem de ver o vídeo que estava destinado ao piso subterrâneo. A intervenção está agora completa. Se o vídeo continua a correr lá dentro, não sei. Sei que a peça, mais que inicialmente, menos explicitamente, continua a ser um poema ao cubo-branco. Na verdade, a peça não é autónoma do edifício, pelo contrário, existe em continuidade com ele, faz parte da sua estrutura arquitectónica. E nós somos um organismo vivo que se passeia por dentro desse corpo. Ao mesmo tempo que a construção nos veda a passagem para os espaços, já nos prendeu na sua trama; no momento em que nos mete do lado de lá, no interior das construções, já nos expulsou das suas entranhas.

Saio da Appleton Square – talvez devesse dizer da obra em si – e volto a entrar pela porta, com o artista, à hora marcada. Sobre a vertigem e o impacto que a parede me causou entretanto, nada lhe contei.

Um agradecimento especial a Vera Appleton, a quem se deve em parte a concretização do projecto, pela sua persistência e entusiasmo.

 

13 de Abril de 2016