DA FÁBRICA QUE DESVANECE À BAÍA DO TEJO

September 2014
Companhia União Fabril, Barreiro
Variable dimensions
TEXT BY

Em Portugal, certamente poucas paisagens serão tão impressivas como aquela que espera um visitante no parque industrial da antiga companhia União fabril, no Barreiro. Na sua quase totalidade, o recinto é hoje uma pálida e degradada imagem do que já foi, repleto de unidades desativadas, ora em escombros ora desertas, sobrando muito poucas em atividade. O parque é, também por isso, bastante exemplar de como uma atividade económica, e a sua trajetória, molda toda a sua fisionomia de uma cidade e de como esta se esvazia quando aquela desaparece.

Iniciado no princípio do sec. XX pelo industrial Alfredo da Silva, fundador de um império económico que chegou a ter 16000 funcionários, o recinto correspondeu à materialização do conceito de "empresa-família" que estendia à vida privada dos operários a influencia da empresa que disponibilizava casa e outras necessidades. Tantos anos passados, não deixa de ser irónico que o frondoso mausoléu do "pai" fundador - da autoria de Cristino da Silva e Leopoldo de Almeida - esteja em muito melhor estado que o legado que circunda.

Comissariada pela artista e curadora Claudia Ramos e apoiada pela empresa que gere atualmente o recinto (Baía do Tejo), esta exposição reúne um conjunto de intervenções de artistas que estiveram em residência no local e os trabalhos que agra apresentam ligam-se fortemente à aparência e natureza específica desta paisagem.

O percurso pode começar com a intervenção de Ricardo Jacinto que se encontra a natureza fabril do complexo convocando uma dimensão escultórica - através de andaimes presentes no espaço- aos quais adiciona o rumor sonoro industrial local. Igualmente recolectora, mas de modo distinto, é a ação de Valter Ventura que encontrou materiais industriais amalgamados pelo tempo, produtos cuja função já não é fácil de sinalizar, o que os transforma, depois de fotografados, numa verdadeira metáfora arqueológica. Ali ao lado, no mesmo pavilhão, Martinha Maia procede a uma utilização de materiais locais que se tornam materiais de pintura que a artista usa em intervenções murais abstratas incluindo gesto e geometria.

Como é seu hábito, António Bolota intervém sobre a arquitetura preexistente, aqui particularmente rica, criando um composto escultórico-arquitetónico denso e inexpugnável - uma estrutura revestida de gesso de vértices arredondados - que altera a consciência do espaço. Naquela que é a mais engenhosa das intervenções, Dalila Gonçalves faz do recinto de um dos pavilhões um intrincado caleidoscópio de observatórios da paisagem marítima e industrial, estabelecendo delicadas relações entre coisas que permitem ver e coisas para serem vistas.

Talvez falta a exposição uma intervenção que traga para ultimo plano a contingência humana do lugar, mas o que estas intervenções enfatizam é a natureza sistemática da paisagem onde ainda resistem as marcas de uma utopia económica do passado embora o seu atual estado nos leve a pensar, inevitavelmente, no presente desindustrializado e economicamente depauperado do país.

In Expresso, Revista ATUAL nº 2185, 13 de Setembro de 2014, p.32.