COMO PROTEGER-SE DO TIGRE

January 2011
Vila Nova de Cerveira
7.00 x 2.00 x 8.3 m Ceramic bricks, mortar and pre-fabricated cement eaves.
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" Integrada na 16.ª Bienal de Vila Nova de Cerveira, "Como Proteger-se do Tigre", com a curadoria de João Mourão e Luís Silva (directores do Kunsthalle Lissabon), é um momento único, irrepetível, precioso. Serão assim (ou deviam ser assim) todas as exposições de arte, mas esta colectiva, pela relação que estabelece com o interior e o exterior do espaço arquitectónico (a Casa Vermelha, na vila minhota) e os lugares em volta, merece os epítetos.

As obras da maioria dos artistas convidados pousam delicadas no rés-do-chão, nas salas, num quarto, na base de uma escadaria. São interpelações resguardadas, subtis ao olhar, ao corpo, à gravidade, que se alimentam, sobretudo, da luz natural ou das marcas da erosão do tempo. É tentador evocar uma austeridade a propósito das formas e das imagens que habitarão a Casa Vermelha até meados de Setembro. O mais justo será falar de uma depuração, de um quase invisibilidade. Diante de tal pudor, o visitante avança cautelosamente, disponível e curioso.

A história e a arquitectura da casa, construída na década de 60 por um cidadão norte-americano que a habitou nas décadas seguintes, não se sobrepõem tematicamente à exposição. Servem, quando muito, de motes oblíquos. As silhuetas pintadas por João Queiroz nas paredes do torreão remetem para as bandeiras (dos EUA) que o proprietário tinha o hábito de hastear. Mas essa é a única ligação à narrativa do edifício: são sobretudo pinturas-pele, superfícies orgânicas, com uma dimensão háptica, (próximas aliás da produção dos anos 90 do pintor). A intervenção de António Bolota escapa-se ao olhar, o que parece paradoxal: trata-se de uma escultura de grandes dimensões. Acontece que o artista usou a mesma cor e o mesmo tipo de materiais da Casa Vermelha, reorganizando, assim, o lugar do nosso corpo e a relação deste (íntima, física, ambígua) com a arquitectura e o espaço. A peça sonora de Nuno Luz também pode ser apreciada no exterior. Funciona durante períodos específicos do dia, e devolve, a partir do coração do edifício, o som da cidade (o ruído do comboio sobre a linha, o toque de um sino, o barulho da rua) aos habitantes e visitantes. Como um duplo sem corpo, feito apenas de ecos e ressonâncias.

..."